Ana Oliveira
TABLADO
As cortinas se fecham, aplausos, pessoas admirando o perfeito espetáculo proporcionado por um ventre choroso por ti. Sorrir parece difícil, mas venci o desafio. Sorrindo às dores do meu tablado barulhento, que todas as noites apresenta espetáculo de sapateado, riscando a madeira surrada pelo tempo, corroída pela umidade e que parece escorregadia em noites de chuva. Todo artista pinta o mundo como vê e eu, nessa insanidade que chamam de amor, pintei uma aquarela com cores que ainda não foram criadas. Abandono o palco em direção à porta onde devo deixar meu casaco. Está frio lá fora, ainda assim, não posso levá-lo. Tiro os sapatos redondos, estão a me apertar os pés. Os laços de cetim, arremessei pelos corredores. A peruca vermelha carmesim, lancei pela janela, devo acolher meus grisalhos. A maquiagem, não pude tirar. Minha alma, toda vez que chora, se coloca a lembrar de ti e sempre uma nova lágrima é pintada. Um sorriso desenhado com delicadeza a esconder saudade gotejante. Seria esse tal amor uma nascente? De todos os amores que nunca vivi, você foi o único que inventei.
Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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