Valéria Vefer
NÓS NA GARGANTA
De tudo o que trago no peito, entre dores, cicatrizes e defeitos, os males que vida me deu, encontro num único pensamento, de tudo o que cabe aqui dentro, o estorno daquilo que é meu. Sinto menor o casulo que envolve beijos e sussurros gigantes pequeninos obscuros. Sinto maior o conteúdo que comprime quase tudo. Ou quase ou tudo. Entre nós, na garganta, um sentimento desperta A boca fechada, lamenta o que foi perdido. E, num desespero insano contido, mundano, aguenta. Mas quanto mais eu me fecho, mais o bruto expande. E, de repente, e de uma só vez, lá de dentro, num impulso único sentido, berra a todos os ventos esse nosso absurdo.
Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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