Ricardo Estevão
MEU PRATO PREDILETO
Quando eu ainda não conhecia o seu gosto, minha língua analfabeta ficava imaginando-o, enquanto eu me perdia em palavras para esconder o que engolia em silêncio: o medo de jamais saber seu sabor. Foi um tempo de sonho, espera e fantasia em que eu quase fui feliz: o impalpável me fazia estremecer, e a poesia era um modo de já possuir o que ainda não era meu. Rememorar, pois, essa água na boca, agora que seu gosto já se espalha em meu prato, é como celebrar a saudade inexplicável de uma dor que passou, mas continua: cicatriz que não confirma a cura. Seu gosto tem o mel de um remédio doce E esse álcool que queima a língua, “matando a sede na saliva”, sem estancar meu apetite. Seu sabor transita de você para mim a fim de me habitar por um tempo incalculável, como se precisasse compensar o jejum de eras atrás. Nunca saciado... eu quero é mais.
Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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