O Amor é Um Grito · página 50

Fônseca

Sem título

É o drama da consciência, aquele que escreve nunca morre de amor. A
vida controlada na imagem, o vidro em estilhaços, o sol sob suas mãos. A
ansiedade que deságua no adoecer da alma.

É um grito flamejante que pulsa do interior do peito e não cessa. O alavancar
dos ventos que sopram a necessidade de vozear o que repercute nas
entranhas, no soluçar do choro a perda, o declive de cada suspiro no preço
das apostas.

É como um grito de um pássaro navegante do vosso corpo mergulhado
de solidão. Expressar o peso carregado aos ombros da inquietação do
sentimento de morada.
Justo, naquele que aproxima a garganta do grito, afasta o poeta da solidão, na
contramão do imposto por andar na calçada, na luz do poste que apaga, na
travessia do perigo que aprisiona a mágoa.

Mas ouse procurar na gaveta, o remorso escondido na brecha, a voz que
ecoa de um silencioso olhar pelos andaimes e escombros deste mundo de
planos, do cinza e seco das primaveras da guerra, minha voz é amor no grito,
minha letra pela toque da mão, esfarela.

O amor parece um episódio de saudade, um grito a sorrir como Capitu,
indomável sob os muros do medo e da culpa. Página do tempo inviável, céu
nublado onde surgiu uma voz calma, a madruga presságio para o grito, a
mente que destina o corpo a sofrer calado.

A respiração ofegante pelo vendaval de holofotes, o riso da lágrima do
palhaço, o verbo configurado nas cordas, vocais e melodias que habitam meu
grito : O amor é o maior convívio em que me sinto despreparado.

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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