Fônseca
Sem título
É o drama da consciência, aquele que escreve nunca morre de amor. A vida controlada na imagem, o vidro em estilhaços, o sol sob suas mãos. A ansiedade que deságua no adoecer da alma. É um grito flamejante que pulsa do interior do peito e não cessa. O alavancar dos ventos que sopram a necessidade de vozear o que repercute nas entranhas, no soluçar do choro a perda, o declive de cada suspiro no preço das apostas. É como um grito de um pássaro navegante do vosso corpo mergulhado de solidão. Expressar o peso carregado aos ombros da inquietação do sentimento de morada. Justo, naquele que aproxima a garganta do grito, afasta o poeta da solidão, na contramão do imposto por andar na calçada, na luz do poste que apaga, na travessia do perigo que aprisiona a mágoa. Mas ouse procurar na gaveta, o remorso escondido na brecha, a voz que ecoa de um silencioso olhar pelos andaimes e escombros deste mundo de planos, do cinza e seco das primaveras da guerra, minha voz é amor no grito, minha letra pela toque da mão, esfarela. O amor parece um episódio de saudade, um grito a sorrir como Capitu, indomável sob os muros do medo e da culpa. Página do tempo inviável, céu nublado onde surgiu uma voz calma, a madruga presságio para o grito, a mente que destina o corpo a sofrer calado. A respiração ofegante pelo vendaval de holofotes, o riso da lágrima do palhaço, o verbo configurado nas cordas, vocais e melodias que habitam meu grito : O amor é o maior convívio em que me sinto despreparado.
Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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