O Amor é Um Grito · página 264

Elisa Fleming

ALHO

                 Todos os dias ela escolhe um por um,
                              debulha
               espalha no tabuleiro velho e cheio de marcas
                        de tantos cortes

                  O capitato da mão
                      que serve de martelo
                                  solta a casca

          Ora bate fraco para não explodir os dentes pequeninos
            Ora bate mais forte pra liberar os dentes maiores

                   Um por um

                 A mão vai ficando cheia de cola
                           de cheiro
                       Que impregna,
                    toma conta dos sentidos

                                      Saliva

       Arde o corte de faca esquecido na falange média do indicador

                Ela olha cada pedacinho picado bem pequeno
                    a borbulhar dourado na panela
                        enchendo a casa
                           de cheiro
                          de perfume

         E no exercício da paciência
a vida vai nos ensinando que rotina é segurança
                 E amor.

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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