Andrei da Rosa
LINHAS IRREGULARES
a linha tu passas pelo urdume
em tua mão, a agulha não vacila
entre seus dedos a lã faz morada
tear no colo, o tecelão assume
teces, concentrado, de alvorada a alvorada
da lã que não só da ovelha esquila
tapeçaria que não só de fios é feita
nosso amor enrolado no urdume do tear
tece, amor meu, que também tramo em linha imperfeita
linhas tortas que tento pentear
lágrimas arrancadas pelo vento, sorrisos de um verão abafado
memórias serpenteando a tapeçaria nunca acabada
tece, amor meu, que também tramo coreografado
uma tapeçaria para ti, de paixão exacerbada
melancolia romântica e tristezas superadas, pois amor meu
nossas obras degeneradas, exageradas, inesperadas, acaloradas
nunca ficarão prontas, a linha perpassa o urdume outra vez
tua mão com a agulha percorre concentrado
o desenho enlinhado do pôr do sol no guaíba
lembrança de dias passados, as mãos dadas com leveza
tece, amor meu, que contigo tramo linhas infinitas
imperfeitas, coloridas como aquele primeiro pôr do sol
tapeçarias expostas para nós, em nossas memórias inscritas
um amor ilustrado em lã.Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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