O Amor é Um Grito · página 146

André Eitti Ogawa

FILHO

o jantar
impaciente
aguardou intocado a noite toda

os vegetais
dantes fumegantes
molejavam o jazigo frio

a carne perdeu suculência

as manhãs
já não são aquelas
do café estendido
abraçado ao cachorro
a poltrona moldada ao traseiro

nos dedos
a textura do jornal

faz dias
que o rádio não toca
os livros juntam poeira

à noitinha
dançamos o balé do silêncio
da mais severa biblioteca

maestro das madrugadas
orquestro a sinfonia de fraldas
cólicas e puns

que da janela
fazem o sol despontar no horizonte

a paternidade
a maternidade
é quando
tudo que era importante
deve ficar pra depois

e a nova forma de amor
ternamente
nos brutaliza
pra melhor.

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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