O Amor é Um Grito · página 28

ágata pagu

OBRA INACABADA

costurar e criar uma teia que retenha as rosas
mostre as cicatrizes expostas
mais três velas ainda precisarão ser acesas
e três luas ainda por aqui se passarão
percebo, tudo mora na idealização
        spray vermelho tinta bordô
              experimentar o pudor,
                    amor
                experimentar o rubro
          AMOR
          experimentar o humor
costurar costurar costurar cartas de fuga
         voos de rapina
                 olhos que vêem
                       duas fugitivas
               duas amantes
                       duas mordidas
               duas luas minguantes
        duas encruzilhadas são olhos que espiam
no que se cruza, se torce, inflama
       não tema, ora se proteja
         não pregar os olhos que protegem,
vigiam, são pares
          durmo. acordo em relance. não descanso.
           tenho você ao lado
perco a vista pro sono pra lembrar da estrada
      com todo o imediatismo teu, retorno ao breu
não sei mais o gosto dos teus lábios
       o poder em deixar ir, memória devorada

               pela urgência em raiar amanhã e a lua acender o quintal
        tento transmutar
me fazer papel dobradura altar
           assobio
o sabiá sabe que se há desassossego
                 se quebra no alagar
              o amor dá asas, e sabía só sossega
              no tecer de outro canto para cantar
                      e as crianças amanhã, como ficam?
não há o que florescer do amor nos rodeios da injustiça
         todavia, amanhã,
sou outra gente outra carne
povoada do imaginário viver a fantasia fantasiada sem porcelanato
uma parede de rua rasgada
sou um muro pixado.

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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